Entrevista com Ciro Gomes: “O vazamento da Lava Jato atrapalha o combate à corrupção”

Ciro Gomes diz que a “Indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada quer distrair o povo brasileiro” e que “o bicho mais parecido com bolsominion é petista fanático. Um explica o outro”.

Apesar de criticar duramente a atuação do ministro da Justiça, o ex-juiz Sergio Moro, e do procurador Deltan Dallagnol, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) se mostrou contra a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar integrantes do Poder Judiciário. “Não tem (espaço) e não é sadio. É claro que a população gostaria muito especialmente para fazer o espetáculo, para humilhar o juiz. E trazer gente do Supremo para explicar sentença”, declarou, em entrevista à Tribuna da Bahia. Ciro não tem dúvida de que Moro e Deltan são culpados e agiram parcialmente na operação Lava Jato. Para ele, o caso “atrapalha” o combate à corrupção. O ex-ministro, porém, não acredita que os juízes e procuradores vão continuar trabalhando para reduzir a pratica ilícita no país. “A gente precisa entender que o combate à corrupção não se faz com o xerife de espetáculos. Combate à corrupção se faz com o exemplo, com permanente inovação institucional. Ou você acredita que só o Sérgio Moro na gigantesca estrutura do Judiciário brasileiro é o homem sozinho que combate à corrupção? É mentira. Tem muito juízes severos fazendo aí o combate à corrupção dentro da Lei, dentro da severidade, sem se exibir, sem querer aparecer para virar político. Isso que é de verdade combater a corrupção. E está sendo feito”, pontuou.

Tribuna

Como avalia o começo do governo Bolsonaro? O senhor disputou a eleição do ano passado e foi o terceiro colocado. O senhor percebe que falta um projeto de desenvolvimento para o país?

Ciro Gomes

É muito cedo para que a gente dê uma sentença definitiva sobre o governo Bolsonaro. Eu cultivo a honestidade, se fosse presidente da República gostaria que as pessoas que me examinassem tivesse a distância crítica e o equilíbrio com que eu vou procurar sempre analisar e se sustentar minha crítica. Mas o Bolsonaro tendo recebido uma herança grave, macabra do desmonte do Brasil pelo governo Dilma-Temer, está infelizmente gravando esse desmonte. Ou seja, ele não é responsável pela tragédia brasileira socioeconômica do Brasil. Está completando hoje uma década do pior momento dos últimos 120 anos em matéria de indicadores de desenvolvimento econômico. Mas ele é o responsável por resolver o problema, porque essa seria a tarefa minha se tivesse eu a honra e o privilégio de representar 57 milhões de brasileiros, por quem tenho um profundo respeito. Ele está gravando a situação em duas questões. Eu estou fazendo um observatório trabalhista para ajudar o povo. Essa ferramenta nos protege de paixões, de ódio. O bicho mais parecido com bolsominion é petista fanático. Um explica o outro. Para eles, tudo o seu grupo pode fazer. O outro lado tudo é defeito. Não tem qualidade nenhuma. Eu sou diferente deles. Do ponto de vista da economia, o Brasil teve a pior recessão da sua história com a Dilma. Na virada do impeachment com Michel Temer, houve um discreto retorno, um crescimento positivo, mas muito moderado, muito medíocre.

Tribuna

E ai veio do governo Bolsonaro…

Ciro Gomes

Com Bolsonaro, a economia voltou a decrescer. E a gente pode explicar claramente isso. A consequência prática é o desemprego de 14 milhões de brasileiros, que continua mais ou menos como estava. Tem uma variação para mais ou para menos. Mas a quantidade de brasileiros no mundo do trabalho subutilizado, que é a véspera desemprego, aumentou exponencialmente no governo Bolsonaro. O primeiro semestre do governo Bolsonaro tem a pior taxa de investimento da história do Brasil em todos os tempos. No observatório trabalhista, a gente compara o primeiro semestre de 2012, 2014, 2016 e 2018, o dele é disparado o pior investimento da história do Brasil em todos os tempos. Isso se desdobra na menor execução orçamentária em segurança pública desde sempre, na menor execução orçamentária em saúde pública de todos os tempos, na menor execução orçamentária em educação. Houve uma discreta melhora na execução orçamentária em meio ambiente. Isso tudo baseado em números oficiais. Então, tem os indicadores socioeconômicos em degradação. As políticas sociais também em degradação. No campo internacional, o governo é uma tragédia que nós nunca veremos nada parecido. Em seis meses, o Bolsonaro aceitou o apelo norte-americano que o Brasil  feche as portas para políticas, como, por exemplo de compras, como quebra de patente. Aceitou entregar um pedaço do território brasileiro aos norte-americanos. A base de Alcântara está proibido o acesso até das autoridades militares brasileiros sem autorização dos americanos. Aceitou importar uma cota de 750 mil toneladas de trigo subsidiado dos Estados Unidos. O vai liquidar o restinho da nossa cultura. Assinou, sem conversar com ninguém, o Tratado da União Europeia com o Mercosul, introduzindo absoluta franquia de  produtos industriais europeus.  Vão entrar no Brasil sem qualquer proteção e se acabar com a indústria brasileira. Aceitou limitar a vantagem estratégica que o Brasil tem no agronegócio  ao aceitar o princípio da precaução. Nem o agronegociantes brasileiros sabem disto. O que é o princípio da precaução? Qualquer empresa ou qualquer Estado Nacional da União Europeia pode vetar compras de natureza agropastoril do Brasil pela mera suspeita de que esta produção pode ter sido feita em bases ambientalmente hostis ao padrão que eles acham que deve acontecer. Então, para não cansar o leitor, é um desastre a entrega do Brasil ao interesse internacional sem precedentes.

Tribuna

Como avalia a tentativa de indicação do Eduardo Bolsonaro para Embaixada do Brasil nos Estados Unidos?

Ciro Gomes

É uma tentativa do Bolsonaro – orientado por essa estrutura estrangeira de marketing a custa de muito dinheiro sujo, dos corruptos de Israel, dos corruptos dos Estados Unidos – de distrair a população brasileira. Ele anunciou essa aberração no dia em que os deputados votaram a reforma da Previdência e o Rodrigo Maia deu um tempo para os deputados voltarem as suas bases. Só depois do recesso, no princípio de agosto, que irá votar o segundo turno da reforma. Neste entremente, o povo está discutindo. Então, ele introduz um assunto absolutamente chocante. Que é botar um filho policial, com 35 anos de idade, para representar o Brasil no mais complexo, difícil, posto da diplomacia mundial que é representação junto ao império norte-americano, onde assuntos graves relativos às relações internacionais multilaterais, fundo monetário internacional, posicionamento em órgãos de controle de arma química, posicionamento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Aí quer botar um camarada que não sabe se quer falar português. Que é um policial que não tem nenhuma vivência. Que faz apologia da tortura. Elogia um facínora como esse Brilhante Ustra, que torturava mulher como a Miriam Leitão. Ele a trancou nua no quarto escuro com uma cobra. E com ratos empurrando na vagina das mulheres. Esse é canalha. Os americanos vão reagir pesadamente a isto. O trump vai gostar porque terá o representante do vassalo dele.

Tribuna

Como o senhor vê a reforma da Previdência, que está sendo conduzida pelo Congresso? Vai ser tábua de salvação para atrair o mercado internacional para o Brasil?

Ciro Gomes

Essa vai ser a maior ressaca política dos últimos tempos no Brasil. A reforma que está sendo feita é péssima tecnicamente. E é selvagem do ponto de vista social. Ela promete mitigar o déficit da Previdência em 10 anos. A forma como foi feita não considera a contração da receita da Previdência pela brutal informalidade, que é legislação trabalhista nova introduzida por Temer. Dez anos atrás, o Brasil tinha 54 milhões de carteiras assinadas. Nós temos hoje menos 30 milhões de carteiras assinadas. Concretamente, isso é a principal fonte de financiamento da Previdência. Nós temos uma proposta que resolve o desequilíbrio do fisco brasileiro. Mas tecnicamente essa proposta é uma grande mentira. Não vai resolver absolutamente nada. As Forças Armadas custam R$ 47 bilhões por ano e contribui R$ 3 bilhões. A reforma faz absolutamente nada.  Enquanto isso, um operário da construção civil, para implementar o direito a aposentadoria por essa reforma social perversa, tem que combinar 40 anos de contribuição integral mais de 65 anos de idade. O IBGE mostra que o trabalhador comum passa oito anos em média sem carteira assinada. Quem sabe da vida do povo, sabe que o camarada acaba a construção e da baixa na carteira. Esse servente de pedreiro, que ganha um salário mínimo, se cair do andaime e morrer a viúva dele terá direito a 60% da pensão. Isso é uma violência sem nome.

Tribuna

O senhor defende a punição dos pedetistas que votaram a favor da reforma da Previdência?

Ciro Gomes

Não. Eu defendo, para ele, o que eu fiz ao longo da minha vida trágica sob ponto de vista partidário. Quando o partido pratica uma contradição, para as minhas convicções, eu saio. Eu sempre fiz isso. Eu ajudei a fundar e organizar o PSDB. Assinei o programa sério, de gente séria. O governo Fernando Henrique fez tudo ao contrário do que nós prometemos para o povo. Isso desmoraliza os partidos. 

Tribuna

Como o senhor vê o vazamento das mensagens dos integrantes da  Operação Lava Jato? Isso, de alguma forma, atrapalha o combate da corrupção no país? 

Ciro Gomes

Atrapalha muito. Como eu sempre disse, o papel de juiz não é botar a gravatinha borboleta e sair por aí se exibindo,  dando entrevista pelos cotovelos, se exibindo e se mostrando. O papel do juiz é ser severo na observação do que tá acontecendo nos autos. E condenar ou absolver conforme a prova dos autos. Se o juiz começa a ser chefe de uma parte, ele se torna suspeito. Está escrito no Código de Processo Penal. Ele deve se declarar suspeito se ele aconselhou uma das partes no processo penal. O Ministério Público é uma das partes. Aa defesa é a outra parte. Se o juiz passa a aconselhar uma parte, ele é, por lei, suspeito. E como tal ele deve se declarar. Se ele não se declara, qualquer das figuras pode alegar essa suspeição. E, se ela for reconhecida, todos os atos praticados são nulos. Portanto, seu Sérgio Moro, para quem não gosta do Lula, deixou aí todo o caminho para anular o processo do Lula. E devolver o Lula para rua ainda que o Lula tem muitas coisas a explicar a sociedade brasileira.

Tribuna

Quando o senhor acha ex-presidente Lula ganha liberdade?

Ciro Gomes

Nós vemos, inclusive, proteger as etapas porque elas têm a ver com o estado de direito democrático. A Constituição Federal brasileira garante a liberdade de imprensa como um dogma da democracia.  Nós brasileiros entendemos que a democracia não existe se não garantir a liberdade de imprensa. Está escrito na Constituição que é protegido o sigilo da fonte. Quem acha que o processo do Lula é nulo, por essas flagrantes evidência de que o Sérgio Moro foi faccioso, vai entrar com processo trazendo as informações dos jornais. Isso não vale imediatamente. Não é porque é obtida de forma ilícita. O jornalismo não tem a ver com prova ilícita. Jornalismo faz notícia. Mas, na hora que essa notícia entrar nos autos, é justo que a quem entrar com elas peço uma perícia para provar que aquela notícia é verdadeira E aí o Sérgio Mouro, Dallagnol, e os outros dois vão ter que entregar o celular para ser periciado. Eles já deviam ter feito. A prova é tão grande que eles são culpados dessa esculhambação. Fizeram tudo isso até por dinheiro de palestra, por ambição política desmedida, como é o caso do Sérgio Moro. Eles vão ter que entregar os celulares. Estão insinuando que é mentira, mas amanhã a Polícia Federal vai pedir e isso vai se desdobrar. Então, se no final de uma perícia, mostrar que tudo aquilo é verdade. O processo é nulo. Isso vai demorar bastante. Demora muito agora. Em que país do mundo, um juiz – independentemente se o réu é ou não culpado – condena um político e aceita ser ministro do outro político, que se elegeu por que aquele primeiro não pode participar da eleição? Isso é uma imoralidade sem ter como consertar. Se a gente soubesse – só para dar um exemplo – que o Sergio Moro recebeu um saco de dinheiro para fazer o que ele fez, nós todos teriamos clareza de que ele recebeu vantagem. Mas, se a gente tirar o saco de dinheiro, e botar um cargo vitalício de ministro do Supremo Tribunal Federal, isso deixa de ser vantagem? Não, não deixa. Isso também é corrupção

Tribuna

O que vai acontecer com o combate à corrupção?

Ciro Gomes

A gente precisa entender que o combate à corrupção não se faz com um xerife de espetáculos. Combate à corrupção se faz com o exemplo, com permanente inovação institucional. Ou você acredita que só o Sérgio Moro na gigantesca estrutura do Judiciário brasileiro é o homem sozinho que combate à corrupção? É mentira. Tem muito juízes severos fazendo aí o combate à corrupção dentro da Lei, dentro da severidade, sem se exibir, sem querer aparecer para virar político. Isso que é de verdade combater a corrupção. E está sendo feito. O povo brasileiro tem hoje essa percepção. É assim porque nós temos um Ministério Público que não é mais amordaçado. Nós temos porque a imprensa não tem mais medo de censura. A imprensa agora está sendo perseguida se criticar o governo Bolsonaro, que liga e pede para demitir o jornalista como aconteceu com Paulo Henrique Amorim.

Tribuna

Como o senhor vê a tentativa de criação da CPI da Lava Toga? Tem espaço para criar isso?

Ciro Gomes

Não tem e não é sadio. É claro que a população gostaria muito especialmente para fazer o espetáculo, para humilhar o juiz. E trazer gente do Supremo para explicar sentença.

Tribuna

Há espaço em Brasília para falar do impeachment do presidente Bolsonaro? 

Ciro Gomes

Não porque ele não cometeu nenhum crime de responsabilidade. E essa é a única circunstância no presidencialismo que se pode praticar o impeachment. O impeachment não é um ato político de cação ao governo, como fizeram a Dilma. A Dilma foi golpe, porque a Dilma não cometeu nenhum crime de responsabilidade. A pedalada fiscal é um pretexto que não tem nada a ver com crime de responsabilidade. Todos os presidentes fizeram lá atrás. O PT pediu impeachment do Fernando Henrique. A turma do PSDB foi lá e pediu o impeachment da Dilma. E o Brasil está desastrado por causa disto. E o nosso povo pagando o preço dessa imprudência política. Hoje, parece que a maioria dos políticos percebeu que está brincadeirinha de mau gosto de interromper mandatos, não pode mais ser assim. Nós temos que achar o caminho de pressionar o governo para que ele se realmente se organize. Ou vamos aguentar as consequências do nosso voto, porque é assim na democracia. Se a gente vota bem, a gente recebe um bom governo. Se a  gente vota mal, toma na cabeça.

Tribuna

O que faria diferente na campanha do ano passado para convencer o eleitor a votar no senhor?

Ciro Gomes

Eu não faria diferente praticamente nada, porque o povo não me permitiu ter nem sequer visibilidade, embora tenha tido quase 14 milhões de votos. A força dominante nas eleições passadas era o antipetismo pouco reflexivo. Menos no Nordeste, mas grande lá para baixo do Espírito Santo. É um ódio mortal. Bastava eu relativizar minha opinião sobre a justiça da sentença do Lula ou sobre sobre as imprudências do Sérgio Moro, e eu já tava caindo no ódio. Havia uma violenta negação do PT. 

Tribuna

Quais outras reformas o senhor acredita que o presidente  ainda vai ter condições de colocar para apreciação do Congresso? 

Ciro Gomes

Nós vamos entrar numa dinâmica de revogação da Constituição de 88. Vem aí uma reforma tributária. Ninguém conhece direito, mas eu duvido que ela seja na direção do que nós precisamos, de uma reforma que simplifica os tributos, que diminui a incidência sobre o consumo da classe pobre, sobre os investimentos. E aumente a tributação progressiva sobre renda e patrimônio. Um tributo sobre lucros e dividendos que o mundo todo cobra.

Tribuna

Na próxima eleição municipal, qual vai ser orientação do PDT em Salvador?

Ciro Gomes

O PDT é um partido de pequeno para médio porte. Essas eleições municipais são nossos momentos mais difícil. Nós  não temos a capilaridade para dizer que nós vamos disputar em x municípios do Estado da Bahia. Mas, na política de aliança, nós vamos guardar muita coerência. Nós vamos querer que se volte contra a linha de apoio ao Bolsonaro. Nós não vamos aceitar por automático apoio ao PT. 

Tribuna

Incomoda o apoio do PDT ao PT na Bahia? 

Ciro Gomes

Não. Naquele momento, era o melhor. Eu sou amigo do Rui, amigo do Jaques Wagner.  Na campanha, a gente não tinha condição de apresentar um candidato.  Então, a gente escolhe às vezes por afirmação e para negar o outro. Mas aqui eu tenho um relacionamento aberto. 

Colaborou: Rodrigo Daniel Silva

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