“DEM e PT vivem dilema de falta de nomes fortes para disputar eleições”

Wilson Gomes afirma ainda que na capital “a única força política nitidamente bolsonarista com apelo de voto continua sendo o Republicanos”

Por: Guilherme Reis – Editor de Política; Henrique Brinco – Repórter e Paulo Roberto Sampaio – Diretor de Redação

O professor, autor e pesquisador da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Wilson Gomes lançou na última semana seu mais novo livro, “Crônica de uma Tragédia Anunciada: Como a Extrema Direita Chegou ao Poder”. O trabalho se propõe a ajudar a entender como determinados eventos e topografias do itinerário político nacional recente findaram por levar, surpreendentemente, um candidato conservador e da extrema-direita à Presidência da República.

Em entrevista à Tribuna, Gomes, que também é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), fez uma análise das eleições municipais de 2020. Para ele, o PT em Salvador “parecia estar fazendo um teste de conceito para uma candidatura [Major Denice] com perfil muito específico e para um público muito especializado e não tentando derrotar o candidato favorito”, o prefeito eleito Bruno Reis (DEM). O especialista afirma ainda que na capital “a única força política nitidamente bolsonarista com apelo de voto continua sendo o Republicanos, que manteve os seus três vereadores, embora se tenha bolsonaristas radicais aqui também no DEM”. “O resto da Câmara, a parte maior e mais consistente, é ‘centrão’, quer dizer a direita fisiológica que já apoiou governo de todas cores no Brasil e este com Dilma até quando os ares mudaram e acharam mais vantajoso para os seus interesses investir no impeachment, depois apoiar Temer e, por fim, saltaram na canoa de Bolsonaro em decorrência de recompensas correspondentes. No caso do município, estão quase todos na base parlamentar do DEM, como estiveram na base do PT no governo federal. A extrema-direita soteropolitana em sentido literal, em suma, é pequena e não está crescendo, embora partidos da base de Bolsonaro hoje na Câmara Federal tenha uma boa representação na Câmara Municipal, mas com eles, nada é garantido, porque muito acima da ideologia estão os cálculos de ‘quanto ganhamos com isso?’”, avalia.

No papo, Wilson Gomes também faz projeções para a eleição de 2022 e aponta: “O DEM e o PT vivem o mesmo dilema de falta de nomes fortes para disputar eleições majoritárias importantes”.

Tribuna – Como avalia o desempenho da esquerda nas eleições municipais de Salvador? Reflete a situação da esquerda no Brasil?

Wilson Gomes – Depende do que se considera o mais revelador da capacidade que os partidos têm de capturar o voto dos eleitores. Tem gente que olha para o Executivo, que dá mapas mais simples e com um pequeno número de variáveis, eu prefiro olhar para as votações proporcionais para as casas legislativas, que refletem mais a diversidade e pluralidade do voto popular. Então para quem vê as montanhas do Executivo vai achar que a esquerda municipal foi mal porque se fragmentou em várias candidaturas e não apresentou qualquer uma realmente competitiva. E, desse ponto de vista, foi mesmo. O PT parecia estar fazendo um teste de conceito para uma candidatura com perfil muito específico e para um público muito especializado e não tentando derrotar o candidato favorito. Olhando-se, contudo, os vales e colinas do vota em vereadores, a esquerda manteve-se numericamente estável, com pequeno incremento, e com inovações interessantes principalmente no conjunto das representantes eleitas. Note-se, contudo, que a esquerda historicamente não tem bancada grande e forte na Câmara Municipal de Salvador, mesmo nos anos em que governou o país e estando há várias eleições no comando do estado. Os partidos oriundos da Arena e do campo da direita pragmática (leia-se fisiológica) continuam dominantes aqui.

Tribuna – Vimos um desempenho razoável da extrema-direita em Salvador, com Alexandre Aleluia e Cezar Leite. Há espaço para o crescimento deste campo na Bahia?

Wilson Gomes – A janela de oportunidades para o crescimento da extrema-direita foi em 2020, na onda marrom do bolsonarismo. PSL e PSC não cresceram este ano e o PRTB não tem representação na CMS, apesar dos 4,65% de votos de Cezar Leite, que pode não ser um desempenho notável considerando que o apoio a Bolsonaro em Salvador é pelo menos 3 vezes maior do que os votos por ele recebidos. A única força política nitidamente bolsonarista com apelo de voto continua sendo o Republicanos, que manteve os seus três vereadores, embora se tenha bolsonaristas radicais aqui também no DEM. O resto da Câmara, a parte maior e mais consistente, é “centrão”, quer dizer a direita fisiológica que já apoiou governo de todas cores no Brasil e este com Dilma até quando os ares mudaram e acharam mais vantajoso para os seus interesses investir no impeachment, depois apoiar Temer e, por fim, saltaram na canoa de Bolsonaro em decorrência de recompensas correspondentes. No caso do município, estão quase todos na base parlamentar do DEM, como estiveram na base do PT no governo federal. A extrema-direita soteropolitana em sentido literal, em suma, é pequena e não está crescendo, embora partidos da base de Bolsonaro hoje na Câmara Federal tenha uma boa representação na Câmara Municipal, mas com eles, nada é garantido, porque muito acima da ideologia estão os cálculos de “quanto ganhamos com isso?”.

Tribuna – Na eleição de 2018, houve vitória de candidatos novos, outsiders. Em 2020, vimos políticos tradicionais vencerem. O que mudou de lá para cá?

Wilson Gomes – Cada eleição tem os seus temas e as suas forças-motrizes. A mudança costuma aparecer, de tempos em tempos, como critério socialmente importante de votos em eleições gerais no Brasil. Foi assim em 1989, quando a condenação à política e aos políticos, o sistema antipolítica, era praticamente tão grande quanto em 2018, quando Collor, que se apresentou como não político, foi eleito por um Partido da Renovação Nacional e em uma coligação chamada Movimento Brasil Novo. Em 2002, não havia ojeriza à política, mas as pessoas se fartaram das políticas de austeridade do PSDB e a mudança desejada foi colocar no centro da agenda nacional a questão social. Em 2018 compareceu novamente a repugnância pelos partidos e pelas instituições da política e a sensação de que qualquer um servia desde que não fosse um político tradicional, não fosse petista e não fosse progressista. Quando a antipolítica predominou no discurso da mudança, o resultado foram as aventuras, os outsiders, as novidades, os jovens. A política, entretanto, como tudo na vida tende à estabilização e tende a assentar-se em alguma forma de estrutura, de institucionalização. À fase do “derruba tudo” segue-se uma fase de reconstrução. Além disso, a renovação pela renovação é típica de momentos em que a raiva “de tudo que está aí” é bastante para uma decisão eleitoral e costuma ser inconsequente. Quando chega a conta da demolição e dos desastres da nova guarda que a raiva colocou para dentro do sistema, o voto nas eleições seguintes tende a reconhecer a experiência, a moderação e a institucionalidade, novamente, como valor eleitoral.

Tribuna – O discurso identitário de alguns candidatos do governo, como Olívia e Major Denice, pode ter atrapalhado nesse sentido?

Wilson Gomes – Ao contrário. Em momentos em que o pêndulo pende muito para um lado, paradoxalmente pode se fortalecer, de um certo modo, o lado oposto, onde se juntam os que fazem questão de resistir. Depois da política brasileira ter saldo da esquerda (2002-2014) para a direita fisiológica (MDB 2016) e, enfim, para a extrema-direita (2018), parece prosperar nas brechas do sistema a sua contraposição mais aguda, a esquerda identitária. Faz sentido, posto que, a meu ver, a extrema-direita bolsonarista também centra a sua estratégia e a sua retórica na assim chamada política identitária, que parte de uma identificação existencial com um grupo de referência baseado uma dimensão essencializada da vida, que pode ser a cor/raça ou a orientação ou a identidade sexual, no caso da esquerda identitária, ou no conservadorismo moral ou religioso, no caso da extrema-direita.

Assim, enquanto os identitários de direita votam em “homens de bem” que prometem dedicar a sua vida a reformar e purificar moralmente o país, colocando a pátria acima de tudo e Deus acima de todos, os identitários de esquerda se apresentam para dizer que que as suas eleições, por si sós, representarão identidades raciais, de gênero ou sexuais, comprometendo-se, além disso, a dedicar os seus mandatos às pautas das “mulheres negras” ou dos LGBTQ+, ou indígenas. Em toda parte, principalmente nas metrópoles brasileiras, conhecemos casos de sucesso eleitoral de candidaturas de esquerda com esse perfil. Não deixa de ser impressionante, no caso de Salvador, que metade dos representantes do PT serão em 2021 de mulheres negras com pautas identitárias e que o único mandato (ou “mandata”) do PSOL passe a ser exercido por três mulheres negras em uma chapa coletiva e igualmente identitária.

Tribuna – Acredita que o crescimento do DEM na Bahia pode ameaçar o PT em 2022?

Wilson Gomes – Eu tentaria outra chave de leitura. O DEM e o PT vivem o mesmo dilema de falta de nomes fortes para disputar eleições majoritárias importantes. Que outro nome tem o DEM, que tenha recall, capital político e reconhecimento, além de ACM Neto? Por mais que tenha sido impressionante o desempenho eleitoral de Bruno Reis, na percepção do eleitor soteropolitano foi ACM Neto a pessoa eleita para um segundo mandato. Bruno Reis, que ele construiu para assumir esta função, é, por assim dizer, um proxy, alguém que está ali “em lugar” de Neto. Não vou chamá-lo de “poste”, como se dizia de Dilma na eleição de 2010, porque além de ser uma expressão deselegante, não seria justo dizer de uma ou de outro que não tinham qualidades e mérito próprios. E o PT da Bahia, que figuras competitivas têm no seu repertório além de Jaques Wagner e Rui Costa? Que aliás, representam dois PTs muito diferentes e autônomos, em voo relativamente solo.

O fato é que 2022 Rui Costa terá cumprido o segundo mandato e claramente não tem ainda um nome em construção para a sua sucessão capaz de medir forças com ACM Neto, independente de quanto o DEM tenha crescido e de quanto o PT seja forte no interior. Será, então, o PT de Wagner a entrar em campo? 2022 poderá ser, de alguma forma, 2018 invertido, quando o DEM e seus aliados foram buscar um nome capaz de fazer frente a Rui Costa na disputa pelo governo da Bahia e falharam miseravelmente. Numa decisão muito polêmica para os seus aliados, ACM Neto recolheu as asas, abriu espaço para uma candidatura para constar e esperou o seu momento. Que, exatamente pela mesma falta de elenco no time adversário, pode acontecer em 2022. A ver. 

Tribuna – Como avalia a composição da Câmara de Salvador? Tivemos eleição de candidatas identitárias, crescimento do PT ao passo que nomes tradicionais ficaram de fora…

Wilson Gomes – Independente das coligações por meios das quais os governos municipais formam as maiorias necessárias para governar a cidade, isto é, considerando-se apenas a características dos próprios partidos, a tradição mais recente da nossa casa legislativa municipal é ser muito partidariamente e ideologicamente.

Em 2020 são impressionantes 22 partidos com assento na Câmara Municipal. Se contar isso fora do país, as pessoas arregalam os olhos. 22 partidos para 43 cadeiras, é mais que fragmentação, é pulverização.

Ideologicamente, o poder também se reparte dentre os grupos ao longo do espectro ideológico. Nas últimas três eleições municipais, os partidos de esquerdas variam de 30%, em 2012 a 18,6%, nos dois últimos pleitos. Depois da punição de 2016, parece ter estabilizado. Com a mudança nacional do teor político a partir de 2016, partidos com o MDB e o PSDB assumiram feições de direita e votam consistentemente com o bolsonarismo, assim como DEM. Assim, eu agruparia os três como um pelotão de elite da direita clássica em 2020, embora nacionalmente votem com a extrema-direita. Esse conjunto hoje ocupa 28% dos assentos. Os partidos bolsonaristas raiz, por sua vez, se incluirmos no conjunto o Republicanos, têm 12% dos vereadores. O fato, para encurtar a conversa, é que a “bancada” mais forte da Câmara Municipal é de partidos do “centrão”, a direita fisiológica brasileira, que controla 1/3 da Câmara.

Assim, as feições da CMS são majoritariamente de direita, liderada pela direita tradicional do DEM e composta ainda pela direita fisiológica e pela extrema-direita, em um total de quase 80%. E não é de hoje que ela é assim. Já tinha essa cara mesmo quando uma grande parte da direita fisiológica era aliada do PT.

Neste quadro, entretanto, tivemos 7 vereadoras eleitas em 2016, e agora são 9. 2/3 das eleitas são de direita e/ou da base bolsonarista. Cinco das vereadoras são negras: 3 da esquerda, 2 da direita. Além disso, a Velha Cidade elegeu, pela primeira vez, uma candidatura coletiva: Pretas Por Salvador. É um avanço? Para quem valoriza o aumento da representação feminina por razão de pluralismo, parecerá pouco, mas relevante. Para quem pensa em termos de lutas identitárias ou só vê avanço no avanço da esquerda, aí vai depender do otimismo para ver o copo meio cheio. A candidata mais votada, Ireuda Silva, 12 mil votos, é negra, da Igreja Universal, de um partido bolsonarista, mas vice-presidente da Comissão de Reparação e presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Saúde. Um desses “paradoxos naturais” de que é feita a Bahia. Religião também não está fora do radar do coletivo Pretas Por Salvador, já que cada uma tem a sua e deixaram isso bem claro. Pretas, mestiças ou brancas, parecem todas mulheres fortes, gente com história de trabalho social ou com experiência em funções públicas de comando. E são jovens, na sua maior parte. Muita coisa interessante para observar, na cidade mais antibolsonarista do Brasil que praticamente só elegeu e reelegeu vereadores de partidos da base bolsonarista.

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